domingo, 14 de março de 2010

Conto: A Aposta - Parte I



Um rastro de fogo rasgava o amarelo da imensidão do céu, por baixo das poucas nuvens que tentavam enfraquecer a luz que Luce jogava sobre todos. Sobre Azkjaerr, Zedd e a jovem Meredith desfrutavam do prazer que quase ninguém alcançaria um dia, de estar próximos às nuvens, sentindo um vento todo diferente, vendo tudo tão pequeno, tão distante, tão belo. O medo que a moça, que acabara de chegar ao décimo sétimo ano de vida, sentia, já tinha sido afastado por beleza tão natural e indescritível. Zedd, apesar de acostumado, ainda se impressionava com este momento.

Strand era uma cidade muito grande, a maior que ambos já viram, e parecia tão pequena lá de cima, chegava a ser engraçado para a garota. Viajavam pelos céus há algumas horas, mas faltavam poucos minutos para a chegada ao destino esperado. Eufórica, Meredith comentava tudo e Zedd só assentia com a cabeça. A tarde chegava ao final, logo teriam a oportunidade de ver o crepúsculo, quando Luce se retirava para que Mond exibisse sua beleza, enquanto o amarelo do céu ia se mesclando às sombras, criando inúmeras variáveis de tons, festejados pelas canções nas vozes de bardos e lembrados nos mais belos poemas que os mesmos escreviam.

Sob tão belo cenário, o trio chegava à Strand, o que fazia a garota ainda mais animada. Azkjaerr sentia o cansaço de uma viagem longa, ainda mais carregando dois humanos em seu lombo, algo até então inédito. Voar era comum em sua mente, mas deixava Zedd surpreso, ainda mais vulnerável aos seus sórdidos conselhos e insinuações. Apesar de tudo, o nischtaerr não acusava a fadiga, levando seu cavaleiro e convidada até o Wörlstarg Jogatina, que registrava nesse horário o maior movimento num dia comum de trabalho.

O jovem de cabelos negros entrava no salão onde estava acostumado a se divertir há dois anos com a mesma postura de sempre, malandro, despreocupado, deixava os olhos percorrerem todo o ambiente, buscava pessoas de espírito fraco, de quem poderia se aproveitar e ganhar um pouco de ouro no jogo. A jovem Meredith vinha logo atrás, tímida, um pouco assustada com um ambiente tão masculino. Era moça de família, sua inocência contrastava com o comportamento das mulheres que se insinuavam por ali.

- Mika, um pouco de weinblauer pro caçador aqui! - Falava Zedd, batendo a mão no balcão onde a mulher atendia alguns clientes, em meio a cortejos dos mais ousados.

- Claro garoto, bom ver que já chegou da sua busca. - Comentava a mulher de cachos dourados, sorridente, enquanto servia a bebida azul ao rapaz, observada por alguns homens próximos, que tinham os olhares atraídos para seu farto decote.

- Vocês! - O rapaz apontava para os homens que insistiam em cortejar Mika - É melhor deixarem ela em paz, se não vão ter que se ver comigo!

Os homens se apavoravam só de pensar na possibilidade de ter que enfrentar Zedd. Cada um deles voltava sua atenção para qualquer outra coisa ali no salão, desde que seus olhos não cruzassem com a loura de belas feições, que ria da situação enquanto via o rapaz pegar sua taça de weinblauer, com o mesmo comportamento confiante e desafiador, que irritava a maioria dos homens e encantava algumas mulheres.

Meredith procurava se esconder atrás de Zedd, incomodada com o olhar de cobiça de muitos homens ali. Percebendo o que acontecia, o jovem apenas olhava feio para os mais extenuados, que logo disfarçavam seu desejo, temendo comprar briga com a pior pessoa possível. Lá do sofá no canto habitual, vinha caminhando o velho Wörlstarg, acompanhado de um homem em nobres vestes, de cabelos negros bem aparados, que tinham alguns poucos fios brancos entregando que chegava à idade mais avançada.

- Senhor Hansilv, aqui está sua filha, em perfeitas condições. - Comemorava Zedd, com um olhar malicioso, que com o passar do tempo aprendera com seu velho patrono.

- Devo admitir que fez um belo trabalho, meu rapaz. Sua recompensa está com meu amigo aqui. - Sorria o senhor, batendo no ombro de Wörlstarg, se apressando em abraçar a filha.

- Conforme havia me informado, era um bando de criminosos que havia sequestrado sua Meredith, e tantas outras garotas. Acho que iam vender para alguém, não sei. - Informava o rapaz, antes de beber uma boa porção do weinblauer que ainda restava na taça.

- Imagino que não tenha averiguado toda a história então. - Se aproximava mais Wörlstarg.

- Fui pago pra trazer a garota e trouxe. O resto não me interessa. - Dava de ombros. - Aliás, se eles continuarem com isso, talvez eu tenha mais garotas pra resgatar depois, não é mesmo? - Um riso malicioso tomava a conversa.

- Oh, não sei se teriam coragem de aprontar novamente por aqui, agora que você interveio.

- Nem fui tão cruel com eles, velhote. Quase todos ficaram vivos, estou contente com minha recompensa dessa vez. - Completa Zedd, colocando a taça vazia sobre o balcão.

Algum tempo se passa, Zedd conversava com Wörlstarg como se fosse o patrão, não o contrário. Despreocupado com o tempo, o rapaz só queria saber de descansar no sofá, enquanto o velho ficava de pé advertindo sobre seu comportamento. Como de costume, sempre alguma garota se sentava e massageava o agora caçador de recompensas, ciente do que ele poderia trazer para a mulher que seu coração escolhesse. Sem qualquer remorso, ele aproveitava, enquanto fumava um pouco de lethi.

A noite passava em meio à jogatina, quando um pequeno desconhecido adentrava o salão. Era logo reconhecido como um halfling, seres parecidos aos humanos, tendo uma altura máxima que não chegava a cento e trinta centímetros, corpos com proporções humanas, de penteados exóticos e fartas costeletas, no caso dos homens. Vestia uma túnica amarela, cheia de adornos e detalhes em prata, carregando uma mochila nas costas, com várias algibeiras pela cintura, botas típicas de viajante e olhar de alguém bastante vivido.

Zedd notava que o pequeno olhava à volta, como se buscasse algo. Parecia ter riquezas, ouvira falar que halflings eram seres de muito bom humor, costumavam ser pacíficos e cheios de vida. Tinha potencial para ser passado para trás no jogo, com os jogos psicológicos e intimidação física que Zedd costumava fazer para atormentar seus oponentes, levando a melhor muitas vezes nos jogos de blefe com dados. Interessado, o jovem caçador se levanta e caminha na direção do pequenino, disposto a conseguir um pouco mais de ouro.

domingo, 7 de março de 2010

Conto: Nova Vida - Final

De uma porta próxima ao canto onde o sofá se encontrava, surgem dois homens com pressa para chegar até seu contratante. Gurrosh não tinha cabelos, apesar do denso cavanhaque negro, que encaixava-se bem no rosto quadrado do grandalhão, que devia ter quase dois metros de altura, trajando um gibão feito de peles que pareciam ser de um urso marrom, empunhando um machado de lâmina dupla. Laethin, mais esguio e bem mais baixo que o companheiro, tinha cabelos castanhos avermelhados e aparência bem cuidada. Vestia uma cota de malha por baixo de uma túnica vermelha, tendo em mãos um escudo e uma espada longa.

Zedd encarava a dupla de guarda-costas com cuidado, sem soltar o gorducho. Os dois contratados não sabiam se deviam atacar ou não, temiam acertar seu patrão, o que com certeza resultaria em suas demissões, caso o velho malandro sobrevivesse. Indiferente, o rapaz de cabelos negros lança o roliço de volta ao sofá, assustando as duas mulheres, que já estavam muito desconfortáveis com a situação.

- Pois bem, veja como não deve me subestimar, porco. - Rosnava Zedd, encarando Wörlstarg antes de se voltar à dupla de guerreiros.

Sem titubear, Gurrosh levantou o machado com as duas mãos, baixando-o num arco à sua frente com grande violência, cravando sua lâmina num vão entre as pedras que foram montadas ao chão. Então notava que o seu oponente, que se livrara do golpe com facilidade, já tinha seu punho fechado muito próximo de seu desprotegido rosto. Sem tempo para reagir, o grandalhão foi jogado para trás com o impacto, se soltando do machado, que também se desprendeu do chão, mas ficara caído.

A satisfação do golpe bem encaixado, fez com que Zedd se descuidasse, sendo atingido pelo escudo de Laethin, que o fez recuar um passo, para então reparar na espada que se aproximava com rapidez. Com pouco tempo para reagir, o rapaz só podia jogar o corpo para trás, rolando para em seguida retornar de pé, mas com um corte vindo do raspão no ombro. Aproveitando o embalo da sua manobra, se aproximou rapidamente do inimigo, golpeando no escudo com a mão aberta, buscando desestabilizá-lo, ao invés de causar algum dano.

Sem o escudo protegendo todo o tórax de Laethin, não foi difícil para Zedd marcar a sola de sua sandália na até então impecável túnica que o mercenário vestia, fazendo-no recuar em alguns passos, para então ser atingido novamente, dessa vez no braço que segurava a espada, que voou longe após outro chute bem aplicado. Desarmado, o guarda-costas começou um recuo desesperado, deixando o inimigo com a vantagem, que fora bem aproveitada, num plástico salto que terminou com o pé direito a explodir novamente contra seu peito, lançando-o ao chão enquanto proferia xingamentos.

No fervor dos golpes, Zedd fora novamente atingido de raspão, nas costas, dessa vez pelo machado de Gurrosh, que se recuperara e pegara novamente sua arma. Confiante, o grandalhão investia novamente, girando o tronco sobre a cintura, deixando o machado às costas com ambas mãos, criando um efeito de estilingue com o próprio corpo, golpeando forte, mas não rápido o suficiente, dando oportunidade para que seu oponente se abaixasse e, apoiando o peso do corpo sobre os dois braços rentes ao tronco, levava os dois pés na direção das pernas do atacante, desequilibrando-o.

Com o oponente desequilibrado, o jovem encrenqueiro só precisou de mais um chute, que acertou em cheio as partes baixas do grandalhão, que soltou no mesmo momento o machado, urrando de dor, enquanto protegia o local atingido com ambas as mãos, sem notar o soco que acertaria seu nariz em seguida, lançando-o com violência ao chão, já inconsciente. Ainda no calor do combate, Zedd olhava em volta procurando por mais oponentes, mas Laethin, apesar de consciente, não demonstrava nenhuma intenção de se levantar. O garoto então olhava sério para o homem gordo, que suava frio.

- Por favor... Por favor, jovem, não deixemos que esse mal entendido encerre nossas negociações, acho que tenho uma boa casa para você sim... - Esfregava as mãos e os dedos, cobertos por anéis de ouro ou prata, enquanto tentava apaziguar o rapaz.

- Sim, uma casa... Vamos, me mostre uma boa casa!

- Como quiser, meu jovem! Vamos partir agora mesmo! - Diz mais convicto o senhor, virando o copo de weinblauer, pegando seu lethi para que não ficasse sem fumar na tal caminhada.

As mulheres se afastaram do patrono, que se colocava a caminhar pelo salão, buscando a saída para as ruas, seguido por Zedd. Azkjaerr esperava lá fora, passando a seguir os humanos quando passam por ele. Wörlstarg estranha, mas o jovem diz que é seu cavalo, e não deixaria ali. O homem grisalho olhava para o nischtaerr com cobiça, nunca havia visto um animal desses antes, talvez valesse bastante para algum nobre que gostasse de montar criaturas exóticas, ou mesmo para algum famoso cavaleiro, como os tradicionais Soulblade, do reino de Oberst.

Após alguns minutos de caminhada e apreensão da parte do velho, os três chegavam à frente de uma grande casa de paredes todas em pedra, que parecia ter dois andares. As portas eram grandes e de ferro, tinham em seu centro o mesmo brasão que os guardas que Zedd viu na entrada da cidade. A casa tinha um grande espaço livre à sua volta, com apenas algumas árvores e um pequeno lago ao fundo. Era um estranho verde no meio do cinza das pedras da cidade.

- Essa casa era de um antigo cliente meu, vinha do povo élfico, gostava muito da natureza, por isso acabamos colocando esse jardim em volta da casa. Como você tem seu interessantíssimo cavalo, talvez o espaço lhe seja útil.

- É, a julgar pelo tamanho, acho bem apropriado para mim. - Respondia Zedd, sem olhar para o velho, apenas admirando a construção.

- O antigo dono, o tal elfo, não ficava muito aqui. As vezes trazia outros elfos, passavam alguns dias, faziam festas, e iam embora. Ele dizia que não gostava muito do cinza das cidades de fora de Noblesse.

- Então, qual o preço dessa casa? - Interrompia o jovem, impaciente.

- Eu poderia apenas alugá-la para você, meu jovem...

- Zedd.

- Sim, jovem Zedd. Poderia apenas alugá-la para você. Você, com toda sua habilidade, poderia me ajudar com alguns clientes que não arcam com suas dívidas da maneira que devem, sabe?

- Hmm. Ficar aqui nessa casa, de graça, em troca de bater num bando de frouxos que só sabem jogar, beber, fumar e flertar? Me parece bom.

- Certamente, meu rapaz! As vezes aparecem alguns homens com pedidos de busca interessantes também. Eu poderia intermediar esse tipo de busca para você, conseguindo uma comissão para mim, deixando a recompensa para seu uso.

- Buscas? Como assim? - Olhava curioso o jovem.

- Ah, alguns pedem para ir num bosque atrás de um tipo de planta, outros pedem para resgatar uma donzela raptada, esse tipo de coisa que vive acontecendo. - Dizia no tom de malandragem que apresentara em sua taverna, sentindo-se mais a vontade com o rapaz.

- Hmm, certo, acho que é interessante. Então eu fico com a casa, e terei refeições grátis na sua taverna. Em troca, cuidarei dessas coisas, certo?

- Refeições? Mas jovem...

- Certo? - Insistia Zedd, se aproximando do velho gordo, cerrando os punhos em ameaça.

- Claro senhor, aqui as chaves da casa, o vejo amanhã pela manhã. - Tremia o homem, intimidado pelo rapaz.

O homem então saiu temeroso, enquanto Zedd caminhava para os portões da casa, acompanhado por Azkjaerr. Seus olhos brilhavam de entusiasmo, estava finalmente fazendo com que as coisas dessem certo. Ali ganharia muito ouro, experiência e poder. Quando sentisse ser o momento propício, acertaria as contas com seu pai e se tornaria rei em Stipendium. O nischtaerr acompanhava maquinando planos também, via-se numa nova vida, que poderia lhe trazer luxos e conhecimento, além de poder abusar de algumas pessoas. Ambos sorriam satisfeitos com o novo rumo em suas vidas.

sábado, 6 de março de 2010

Projetos

Bom, já tem umas semanas que o blog tá no ar. Até onde sei, são poucas pessoas a ler o que tenho postado, mas é assim que as coisas começam, eu acho. Não especifiquei o que venho fazendo, então vamos ao que interessa.

Há alguns anos atrás, comecei a desenhar uma HQ, sem roteiro, nem nada. Ia criando cada quadro enquanto desenhava. Pouquíssimas pessoas viram, acabei fazendo algumas poucas páginas só também, como eu desenhava no trabalho que eu tinha naquela época e fui demitido, parei com a HQ. Mas a história ficou na cabeça. Os anos foram passando e eu ia tendo cada vez mais idéias. Até que uns 2 ou 3 anos atrás eu resolvi botar no papel todas as idéias. Assim criei um roteiro, totalmente amador, mas fazia com que eu conseguisse organizar as idéias. Ameacei escrever a história várias vezes, mas a coisa nunca andava. A idéia inicial era uma HQ, mas o trabalho é imenso...

Então começaram a surgir os desenhos, fui fazendo o design de cada personagem, aprofundando suas histórias pessoais e personalidade. Aí veio a idéia de escrever, já que novamente tenho muito tempo livre. Resolvi criar o blog e ir postando contos paralelos à tal história, pra poder praticar e talvez conseguir alguns leitores, mas sem postar a história principal.

Muita leitura recente, e a entrada de cabeça no novo D&D, resolvi aumentar o projeto. Escrevo os contos, escrevo a história principal, e crio todo um mundo, que é apresentado nessa história, pra ambientar em D&D 4th. Essa semana li várias vezes sobre a GSL, pra ver o que posso e não posso usar, andei estudando um pouco de geografia, pra tentar criar algo que valha a pena ser usado. A minha intenção é ir postando uma vez por semana mais partes dos contos, pra dar tempo de trabalhar nisso tudo e pras pessoas que não são leitoras assíduas poderem acompanhar sem enjoar.

Mas eu não quero deixar o que faço pra me dedicar apenas a isso, que acaba consumindo muito tempo. Por isso vou com calma, é um hobbie, não sei se algum dia vai valer pra mim mais do que o prazer que a gente tem num lazer, mas é bom estar preparado pra tudo hoje em dia. To terminando de ler a trilogia "Icewind Dale", ambientada em Forgotten Realms, escrita por Robert Anthony Salvatore. É muito boa! Espero MESMO que a Devir publique em português mais das obras do R.A. Salvatore em Forgotten.

Mas, no ritmo dos projetos, fica um desenho que fiz na noite dessa última quinta-feira, no trabalho, pra comparar estaturas de algumas raças, inclusive a que eu criei, que talvez poste aqui depois pra uma avaliação.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Conto: Nova Vida - Parte III

Azkjaerr contara que sua raça é como se fossem cavalos selvagens, que tem suas crinas e caudas flamejantes, se alimentam de carne humana e dificilmente servem a alguém. Dizia ser de um plano chamado Nechrotzys, o que Zedd não entendia, mas parecia aceitar. Aos poucos, os ferimentos do nischtaerr iam mostrando melhora, e as fagulhas ficavam mais fortes. O jovem ia se interessando cada vez mais, achava incrível tanta inteligência num suposto animal, mas via que tal criatura tinha um ponto de vista um pouco diferente, mais cruel, amargo.

Alguns dias se passaram, Azkjaerr já estava em melhores condições, apesar de ter comido apenas pequenos mamíferos, como coelhos e esquilos, algo que não gostava, mas era a única coisa que Zedd lhe permitia. O próprio rapaz comia o mesmo que o nischtaerr, já que o pão que carregavam na carroça não durara muito. Nada de diferente acontecia, o que dava a entender que estavam numa estrada pouco usada, pois estariam se aproximando de Strand, a grande capital portuária, onde muitos viajantes vendem suas mercadorias, para que seja transportadas a outros reinos costeiros, que compram pagando muito mais.

Quase completamente recuperado, Azkjaerr se livrou das correntes sem muito trabalho. Ficava deitado como antes, apenas para não alarmar Zedd. Ficava na dúvida se comeria aquela criatura ou se continuaria com ele. Não conhecia esse plano, talvez tendo uma companhia conseguisse se encaixar mais facilmente. Via o jovem com um grande potencial, poderia usá-lo à sua vontade, se fazendo de montaria, mas controlando suas ações, conseguindo assim toda informação que precisaria, além de comida.

No final da tarde deste dia, já avistavam as primeiras construções de Strand. Casas de pedras, construídas de maneira rudimentar, mas eficaz. Os telhados, cobertos com madeiras e lonas, pareciam dar conta de proteger das chuvas, muito frequentes por ali. Conforme iam se aproximando, notavam que o movimento nas ruas era grande. Alguns guardas estavam postados na única entrada visível para a cidade, vestidos em armaduras desgastadas, que cobriam parcialmente o corpo, ostentando numa mão um escudo pequeno e redondo, com um brasão que mostrava um galeão em alto mar, e na outra mão um martelo de guerra.

O garoto se aproxima conduzindo a carroça lentamente, os guardas observam com cautela, mas nada fazem para impedi-lo. Finalmente estava numa metrópole, agora era hora de conseguir um lugar para viver. Azkjaerr parecia inquieto, se mexendo sob as lonas da carroça de maneira incessante, até finalmente tirar a cabeça da escuridão, podendo vislumbrar a cidade e suas construções. Nunca havia visto algo tão organizado, tão bem moldado, civilizado.

Conforme iam adentrando mais a cidade, as construções iam crescendo. Feiras ao ar livre, muitas vendas de peixes e todo tipo de coisa que conseguiam no mar, desde as comestíveis à lembranças feitas de conchas, como colares, pulseiras e todo tipo de coisa. Grandes pousadas em pedra tomavam conta do centro, onde raramente se via alguma casa de madeira, poucas mas feitas com muito esmero, de um trabalho artesanal de encher os olhos, com gravuras e brasões adornando suas paredes, dando um ar muito artístico e exótico.

- Este é um lugar deveras interessante, criatura. - Comentário de Azkjaerr, que observava com atenção as construções.

- Zedd! Meu nome é Zedd! - Corrigia o jovem, respirando fundo em seguida - E sim, é uma metrópole, a capital daqui de Rand. Preciso achar um lugar para viver aqui, talvez você valha o suficiente para uma mansão.

- Pode não ter percebido, Zedd, mas já estou livre das correntes. Não vou ser trocado por ouro. Na verdade, acho que seria mais interessante para ambos que possamos agir em conjunto.

- Nós? - Olhava o jovem, em dúvida. - Você vai ser minha montaria então? Como isso seria melhor que o ouro? - Dando de ombros.

- Ah, você vai ver. - Dizia num tom malicioso o nischtaerr.

- Certo, vamos ver que dá pra arrumar aqui com meu ouro...

Alguns minutos depois, Zedd se aproximava de um estábulo. Negociando rapidamente com o dono, conseguira algumas boas moedas em troca dos cavalos e da carroça. O homem oferecia fortunas por Azkjaerr, que se portava como um cavalo comum, enquanto o rapaz se mostrava interessado nas propostas, mas se limitava a dizer que pensaria. Como previamente combinado, o jovem monta o nischtaerr para ir atrás de um homem de posses que teria casas disponíveis, indicado pelo proprietário do estábulo.

Não ficava muito longe, algumas quadras de cavalgada e estavam à frente do estabelecimento, que tinha uma placa indicativa com os dizeres "Wörlstarg Jogatina". Azkjaerr ficava lá fora, aguardando Zedd, que passava pela porta dupla de madeira, entrando na construção de pedra, um pouco mais bonita que as outras. No seu interior, várias mesas de madeira espalhadas pelo grande salão, em volta de cada uma, alguns homens jogavam cartas ou dados. Muitas moedas sobre as mesas, além de bebida, normalmente cerveja, mas também se via alguns tomando vinho. Algumas mesas tinham mulheres à sua volta, insinuando-se para os homens em busca de conseguir algum ouro, usando roupas provocantes. Muitos também fumavam lethi, um tipo de planta comum em todo continente, que deixava um gosto apimentado na boca, que junto da cerveja parecia ditar a virilidade dos homens.

Após rápida conversa com uma das moças que servia cerveja a uma das mesas, Zedd soube onde encontrar o dono dali, que poderia lhe vender uma casa. Num dos cantos do salão, havia um sofá, onde se encontrava um roliço senhor, vestido em trajes finos, fumando lethi e bebendo weinblauer, um tipo de vinho azul de gosto muito mais refinado que o normal, vindo diretamente de Noblesse, o reino dos elfos, que custava muito caro por ali. Ele estava abraçado com duas mulheres, uma aparentando entre vinte e vinte e cinco anos, de cabelos castanhos claro, ondulados até um palmo abaixo do pescoço, olhos verdes chamativos, enquanto a outra parecia mais experiente, tinha cabelos ruivos curtos, olhos azuis e lábios carnudos. Ambas se vestiam e se comportavam de maneira convidativa, ao notarem o estranho garoto se aproximando, olhavam-no com malícia, enquanto o mesmo só fazia encarar o senhor de idade.

- Senhor Wörlstarg, acredito. - Ainda aproximando-se.

- Sim, meu jovem, sim. - Dizia o senhor com sua pose de poderoso, enquanto desvencilhava uma das mãos do corpo da moça de cabelos castanhos para mexer nos próprios cabelos grisalhos, molhados de suor, livrando sua testa. - No que posso lhe ser útil?

- Sei que o senhor é dono de algumas casas aqui, gostaria de comprar uma. - Respondia sério o rapaz, que não queria perder tempo com coisas triviais.

- Uma casa boa aqui em Strand é muito cara, meu jovem, você sabe. Não sei se teria as condições necessárias. - Continuava o bonachão com seu jeito malandro, dando mais um trago no seu lethi.

- Eu tenho ouro. Gostaria que me mostrasse alguma casa.

- Você? Você tem ouro? - Duvidava o malandro, olhando o rapaz de cima a baixo, reparando nas vestes simples e surradas.

Já impaciente, Zedd não fazia questão de esconder sua ira. Encarava o homem como se pudesse pular em seu pescoço a qualquer momento, mas o mesmo não se importava, continuava a beber seu weinblauer e fumar o lethi, o que irritava ainda mais o rapaz. Com as mãos percorrendo os corpos das duas beldades ao seu lado, o velho parecia não se intimidar com tal postura, seguia sorrindo de maneira maliciosa, quase que ignorando a questão a ser resolvida.

Num rápido movimento, Zedd coloca o corpo à frente, aproximando-se do velho, levando um dos punhos à gola do casaco e puxando-o para mais perto. Já mais temeroso, Wörlstarg olhava nos olhos raivosos do agressor, sabendo que um golpe seria questão de tempo, caso não mudasse seu comportamento. Mas aquele era seu território, sua casa de jogos, ninguém iria desrespeitá-lo ali, por mais que não pudesse revidar, havia contratados para cuidar desse tipo de arruaceiro. - Rapazes! Gurrosh, Laethin, venham! - Gritava o velho.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Conto: Nova Vida - Parte II


Zedd apertava o passo, ia se aproximando da caravana buscando observar seus detalhes. Conseguia ver dois cavalos puxando uma carroça, onde era possível distinguir três homens, dois segurando tochas sob uma lona que os protegia da chuva, além do que conduzia os cavalos. Na parte de trás da carroça, havia algo grande, todo embrulhado, impossível de ser reconhecido daquela distância. O ritmo da carroça ia diminuindo conforme se aproximava de Zedd. Quando já próximos, ambos param e ficam se encarando:

- O que faz alguém sob essa chuva, tarde da noite numa estrada? - Indaga um dos homens que seguravam as tochas.

- Estou de passagem. Vocês parecem carregar algo realmente grande aí... - Respondia o jovem, estampando um sorriso de lado no rosto.

- Algo grande, e nosso. Com sua licença, voltaremos à nossa viagem. - Dizia ríspido o condutor da carroça.

- Licença negada. O que quer que vocês tenham aí, agora é meu.

Ao ouvir as palavras do garoto, os homens pegam de trás do banco onde se sentavam algumas armas. O primeiro pegava uma machadinha, enquanto o segundo sacava uma espada curta. O condutor apenas se levantava, tirando adagas de uma algibeira presa na parte de trás do cinto. Zedd sorri, enquanto entra em postura de combate, com os punhos à frente do rosto e pernas flexionadas. Urrando, o homem com a machadinha se lança contra o jovem, que ia se esquivando sem muitas dificuldades.

Segurando a espada curta numa das mãos, o outro homem observava atônito. O rapaz se esquivava com grande facilidade, parecia dançar diante do esforço de seu amigo. Não sabia se ficava hipnotizado ou nervoso com aquela situação, que mais parecia um deboche. Suas dúvidas acabam, e ele corre na direção do inimigo buscando um golpe em arco de baixo pra cima, à frente do corpo, que por pouco não acerta o alvo, ágil o suficiente pra girar sobre o próprio corpo, esquivando-se da lâmina.

Vendo-se já cercado pelos dois homens, Zedd resolve parar de brincar. Observando rapidamente o ambiente, cria uma estratégia de ataque. Num movimento rápido, o jovem chuta uma porção de barro, lançando-o contra o homem da machadinha, criando uma distração para que encaixe o punho esquerdo em seu estômago, fazendo o homem curvar o tronco em agonia, novamente sendo erguido por um potente gancho de direita, levando o homem ao chão. O segundo, com a espada, se aproxima num movimento de estocada, que é desviado por um golpe com a palma esquerda aberta, criando abertura pra um chute que vai do chão direto ao queixo do homem, fazendo-o recuar alguns passos em dor.

No calor do combate, o jovem príncipe se vê surpreendido por uma pequena lâmina, que atinge suas costas, onde fica alojada, ainda que superficialmente. Virando-se para a direção de onde foi atingido, nota o terceiro homem preparando mais lâminas para lançar. Com dificuldades na visão pela noite e pela chuva, Zedd tenta se esquivar dos outros três projéteis lançados, jogando-se para trás, buscando apoio para as mãos, ficando de cabeça para baixo, para então usar o impulso e completar o movimento lançando o corpo com os braços. Terminando o movimento com outra lâmina cravada sem sua coxa, percebe a aproximação do homem com a espada curta.

Rolando para o lado, o rapaz se esquiva da espada, que atinge violentamente o chão, conseguindo uma abertura para que acerte um chute na perna de apoio do inimigo, derrubando-o no macio barro da estrada. Mais duas lâminas são lançadas, passando de raspão pelo seu corpo, num novo movimento de giro ao redor de si mesmo, deixando-o com impulso suficiente para buscar aproximação do homem das lâminas, que ia lançando mais e mais lâminas, que eram quase todas desviadas, quando não, apenas atingiam de raspão.

Algumas passadas largas, e Zedd se encontrava próximo o suficiente para atingir o inimigo. Evitando um dos disparos, num novo giro de corpo, o rapaz emenda um chute poderoso com a perna direta, que atinge em cheio a lateral da cabeça do homem das adagas, que vai ao chão sem oferecer muita resistência. Sem piedade, o homem ferido é chutado na cabeça novamente, ficando inconsciente.

O mais resistente dos viajantes, aquele que portava a espada curta, investia contra o rapaz sem o menor jeito, deixando várias aberturas, que Zedd soube muito bem explorar, acertando uma sequência de golpes que incapacita o oponente. Sem mais inconvenientes, o hábil andarilho olhava à sua volta, observando que o homem que o atacou com a machadinha permanecia consciente, apenas desistira de lutar. Ele via seu algoz se aproximar, deixando claro seu medo de morrer.

- Por favor, não me mate. - Pedia o homem, ajoelhando-se perante Zedd.

- Fique tranquilo, não estou aqui para tirar a vida de ninguém. Só quero ouro e o que quer que vocês carreguem. - Respondia, passando pelo homem ajoelhado na lama, indo em direção à carroça.

- Pode ficar com tudo, só não me mate!

- Certo. Só deixa tudo que tiver de valor aí, aproveita e pilha seus amigos para mim, por favor.

- Sim senhor! - Amedrontado, acatava o homem, que seguia as ordens.

Algum tempo depois, Zedd contava o ouro sob a lona da carroça, juntando às moedas de ouro que já tinha. Havia deixado que o homem levasse seus amigos e fugisse dali. Com um pouco mais de atenção, encontrou alguns pães numa bolsa, logo levando um deles à boca. Viajara todo o dia sem comer nada além dos pães de quando acordou, sentia fome e cansaço. Ficava curioso com o que teria embrulhado na carroça, mas chovia e estava escuro, era melhor seguir viagem e conferir mais tarde. Começava a traçar planos para uma moradia em alguma metrópole. Não conseguia se decidir por qual delas. Poucos minutos após se apossar da carroça, avistava um bosque. Conduziu a carroça, deixando num lugar onde pudesse ficar escondido e descansar.

Não era muito bom dormir no chão. Quando Luce apontava novamente no céu, amarelando toda sua imensidão, Zedd já se levantava. A chuva havia parado, não se sabia há quanto tempo, mas era bom estar seco. Arrumava a lona que usara para dormir de maneira mais confortável, guardando-a na carroça novamente, dando uma volta na mesma, dessa vez disposto a observar o que era o tal embrulho, que parecia se mexer.

Ao levantar uma das extremidades do couro que fazia o embrulho, se surpreendeu, conseguindo tirar o braço no puro reflexo, evitando uma mordida. No movimento, havia descoberto boa parte da criatura, que agora podia observar com clareza. Era um cavalo todo acorrentado, pelugem totalmente azul, escuro como a noite, com suas crinas e cauda cinzentas, emitindo fraquíssimas fagulhas avermelhadas. Nunca tinha visto um cavalo desses, nem ouvido falar. Só sabia que estava bem ferido. Tinha cortes por todo o corpo, parecia no fim de sua vida. Mas era um cavalo fisicamente notável, até imponente, fora que por estar sendo carregado assim, deveria ter algo de especial. O olhar do cavalo demonstrava, além de inteligência, raiva, apesar de seu estado.

- Tens muita sorte por eu não ter condições de revide, humano. - Fazia-se ouvir uma voz grossa e imponente, que vinha do cavalo.

- Um cavalo falante? Pois isso sim é uma bela fonte de ouro! - Comemorava Zedd, debochando do cavalo.

- Me alimento de criaturas desprezíveis como você. Se estivesse bem, já teria virado minha comida. - Rosnava o cavalo, tentando intimidar o jovem.

- Nesse estado, é mais fácil você virar minha comida, do que o contrário. Mas não posso deixá-lo morrer, certamente vão me pagar muito ouro por você.

- Ouro? Como ousa dar um valor à mim? Um ser fraco como você, abusando tanto de sua sorte...

- É, talvez você deva ser minha montaria. Eu viajo bastante, um cavalo bom, esperto e imponente como você, poderia ser grande ajuda.

- Não sou um cavalo, criatura ignorante! Jamais deixaria um ser tão insignificante me montar. - Repudiava em desprezo aquele cavalo, mesmo numa posição nada favorável.

- Certo, certo. - Debochava o rapaz. - Mas agora vou tentar dar um jeito nesses seus ferimentos. Ainda devo ter algumas ervas que resolvam isso.

Nos minutos seguintes, Zedd tirava de sua mochila um pequeno saco, onde havia algumas ervas. Pegando um pequeno recipiente e usando os próprios dedos, começava a fazer uma mistura, usando um pouco da água de seu cantil. Não demorou muito a deixar tudo pronto. O próximo estágio era a aplicação. Sem se importar com o bem estar do cavalo, que relinchava de dor, o rapaz aplicava a mistura pastosa verde nos ferimentos da criatura, que pareciam queimar ao simples toque. Depois de aplicar suas misturas, o jovem cobria novamente a criatura, enquanto arrumava suas coisas e a carroça para voltar à estrada. Em meio à viagem, ia descobrindo que não era mesmo um cavalo, e sim um nischtaerr. Ele dizia chamar-se Azkjaerr, e não era nativo deste plano, o que quer que significasse isso. Não sabia como chegou até aqui, mas dizia ter sido atacado por várias pessoas num vilarejo, enquanto procurava alimento: carne humana. Zedd ficava intrigado com tanta informação sem sentido, mas seguia ouvindo.